Relatório da PF revela mensagens entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro antes de prisão do banqueiro
Documento teve o sigilo retirado pelo ministro André Mendonça e reúne conversas, registros de encontros e informações sobre contratos ligados ao escritório da esposa de Moraes
Um relatório da Polícia Federal (PF) tornado público pelo Supremo Tribunal Federal (STF) revelou mensagens atribuídas ao ministro Alexandre de Moraes e ao ex-dono do Banco Master Daniel Vorcaro nos dias que antecederam a prisão do banqueiro, em novembro de 2025. Em uma das conversas, Vorcaro questionou o magistrado sobre a possibilidade de deixar o país diante da perspectiva de uma operação policial contra ele. O documento também reúne registros de encontros entre os dois e informações sobre contratos envolvendo o escritório de advocacia da esposa de Moraes.
O material, elaborado a partir da análise do celular de Vorcaro apreendido pela PF, teve o sigilo retirado na terça-feira (1º) pelo ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF.
Segundo a investigação, em 15 de novembro de 2025, dois dias antes de ser preso, Vorcaro enviou uma mensagem ao contato identificado como “Alexandre de Moraes BRASILIA” perguntando: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.
No dia seguinte, o banqueiro voltou a procurar o interlocutor e questionou sobre a possibilidade de uma ação ocorrer na manhã seguinte. As mensagens também registram tratativas para um encontro entre os dois.
Na noite de 17 de novembro, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, quando se preparava para embarcar em um jato particular.
Outro diálogo destacado no relatório ocorreu em 14 de novembro. Vorcaro afirmou ter uma “dívida de vida” com Moraes e agradeceu ao ministro por “tudo”. Horas antes, segundo o documento, os dois haviam tratado de um encontro.
As mensagens fazem parte do conjunto de dados extraídos do aparelho apreendido durante a Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de irregularidades envolvendo o Banco Master.
Relatório cita encontros entre Moraes e Vorcaro
Além das conversas próximas à prisão, a PF identificou mensagens que apontam para uma série de encontros entre Vorcaro e Moraes entre 2024 e 2025.
Os registros mencionam reuniões em residências particulares e compromissos no Brasil e no exterior. Entre os interlocutores que aparecem nas conversas estão o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, familiares, assessores e funcionários de Vorcaro.
Em fevereiro de 2025, por exemplo, um motorista do banqueiro teria informado sobre a chegada de Moraes à residência do empresário em Brasília. No mês seguinte, Vorcaro relatou estar reunido com o ministro em um encontro que, segundo a PF, avançou pela madrugada e contou posteriormente com a presença de outras lideranças políticas.
Também há referências a encontros durante um feriado, em abril de 2025, e a novas reuniões nos meses seguintes.
PF aponta edição de contrato milionário
O relatório também apresenta informações sobre um contrato de prestação de serviços advocatícios firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.
De acordo com os metadados de uma minuta encontrada no celular de Vorcaro, um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes” aparece como responsável pela última modificação do arquivo antes da assinatura do contrato.
O acordo previa honorários de aproximadamente R$ 130 milhões.
Em nota, o escritório afirmou que Moraes foi consultado pelo setor de compliance, na condição de marido da sócia-diretora, exclusivamente para verificar a existência de eventual impedimento legal para a contratação.
Segundo a banca, não foi identificado impedimento, uma vez que o contrato não previa atuação perante o Supremo e Moraes não havia julgado causas envolvendo o Banco Master.
A investigação também localizou documentos relacionados a uma segunda negociação, no valor de R$ 50 milhões, envolvendo a Viking Participações, empresa ligada a Vorcaro. Uma das propostas previa que parte do pagamento fosse realizada por meio de cotas de um jato e de um helicóptero.
Caso deve ser analisado pelo plenário do STF
Após tornar público o relatório, André Mendonça indicou que os novos elementos deverão ser submetidos ao plenário do Supremo.
A Procuradoria-Geral da República (PGR), no entanto, defendeu a nulidade da apuração relacionada a Moraes. O procurador-geral Paulo Gonet argumentou que Mendonça não poderia determinar individualmente o aprofundamento de uma investigação envolvendo outro ministro do STF.
A PGR não se manifestou sobre eventual existência de crimes nas condutas descritas pela Polícia Federal.
Mendonça defendeu que uma eventual análise do caso pelo plenário seja realizada de forma pública e presencial. Caberá ao presidente do STF, Edson Fachin, definir se o tema será levado à deliberação da Corte.
